Trauma e transformação em situação de pandemia

por | 25 ago, 2020 | depressão, luto, medo, pandemia, Psicanálise, psicoterapia, Uncategorized, Wilfred Bion

Ontem eu me deparei com uma entrevista que Wilfred Bion, um nos maiores gênios da psicanálise, deu para A.G Banet Jr. em 1976 e foi publicada no International Journal for Group Facilitators. É muito interessante vermos como as palavras deste importante psicanalista, proferidas há mais de 4o anos, se mostram tão atuais.

Bion começa falando da sua experiência emocional como comandante de tanques na primeira guerra mundial. Disse ele: “em minha primeira ação de combate, eu tive o intenso sentimento de que eu não devia ter medo – eu não devia fugir, (claro que você não pode fugir, – é impossível- você descobre isso). Outra coisa é que você não se fixa em nada durante o combate. Você cada vez sente mais medo, porque você consegue saber que os perigos são cada vez maiores. Isso foi uma descoberta muito dolorosa. Lembre-se, eu penso que um bom soldado, um soldado regular, pode aprender muito. Ele não se torna menos assustado, mas ele sabe se cuidar. ” O sentimento de medo nunca o deixou?”, pergunta o entrevistador, e Bion responde: nunca. (…) A coisa curiosa era o grande alívio que eu senti quando [a guerra] terminou e então a descoberta de que, de fato, tinha deixado marcas realmente muito fundas. (…) sempre havia algum tipo de sombra – uma coisa horrorosa que nunca realmente saía de nossas mentes. Nós prendíamos isso simplesmente nos consumindo em novas tarefas, mas eu estou certo que a sombra da guerra era um pano de fundo para todos nós” .

Ouvi e li na mídia muitas lideranças dizerem que estamos em guerra contra o Covid – 19. Uma guerra mundial contra um inimigo comum, invisível e poderoso, que além de ceifar vidas, trouxe com ele uma série de perdas. Perdemos nossa liberdade, nossa ingenuidade e a leveza de ir e vir. Estamos presos, mesmo depois de meses da primeira aparição do vírus, numa grossa nuvem de não saber. Nada pior para o ser humano que o desconhecido, e por isto, tivemos também que sofrer com a estupidez dos donos da verdade e dos inimigos da ciência. São tempos de muita angústia, de dor e de luto.

No entanto, eu guardo a esperança de encontrarmos uma luz, um caminho. Nossa vida foi chacoalhada, virada do avesso, e para muitos, interrompida. E aos sobreviventes, continuar caminhando é o que nos resta. Estamos buscando formas de sobreviver ao desastre humano, psicológico, sanitário, econômico e político. Continuamos batalhando, com fé que tudo vai passar. Não sei dizer o que é normal. Muito menos o que seria o novo normal, como dizem. Mas eu tenho fé na criatividade, na disposição para a vida do ser humano, apesar de conhecer seu grande potencial destrutivo e autodestrutivo.

Mas como disse Bion, um dia, quando tudo passar, ainda vamos conviver com as sombras e com as marcas do trauma por muitos anos. O trauma nos lança em dinâmicas de fim do mundo, abre buracos negros e produz feridas no nosso tecido mental, mas ao mesmo tempo, se não for excessivo, gera um impulso para o pensamento e para a transformação. Aprender com experiências de dor psíquica, frustrações e privações pode não ser agradável, mas faz parte da vida e de nosso crescimento como seres humanos.

Deixo aqui o link para a entrevista completa, caso tenham interesse. https://www.continents.ventajas.com/Art30.htm

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