A instalação do abuso, sua normalização e a violência nos relacionamentos.

por | 31 jul, 2020 | depressão, pandemia, Psicanálise, relacionamento abusivo, violência doméstica

Os relacionamentos saudáveis são fruto da construção de parcerias, são baseados em companheirismo e pressupõem equidade, ou seja, a disposição de cada parte de reconhecer igualmente o direito da outra, resguardando-se as diferenças individuais e preservando a personalidade de cada um. Nos relacionamentos abusivos, ao contrário, a relação é assimétrica, estruturada nos binômios autoridade e submissão (manda quem pode, obedece quem tem juízo) e superioridade e inferioridade, onde o abusador entretém a crença de que o outro é uma propriedade sua, e está, portanto, sob seu controle e domínio.

Ou seja, falamos de abuso quando num relacionamento, uma das partes tenta controlar a outra através do uso perverso de poder psicológico, físico, hierárquico ou econômico, normalmente sob o pretexto de cuidar e proteger a outra parte, que é considerada frágil ou incapaz. Os relacionamentos abusivos podem acontecer em qualquer esfera da vida, não só dentro da dinâmica de casais, podendo também ser observados entre familiares, no trabalho ou mesmo entre amigos. Segundo estudo da ONU, as mulheres são mais vítimas de abuso que os homens, sendo que 3 em cada 5 mulheres já viveram ou vivem um relacionamento abusivo.

 A violência doméstica está intrinsecamente ligada à instalação de relacionamentos abusivos. Eu usei a palavra instalação, pois os relacionamentos abusivos vão se constituindo e se estruturando aos poucos. Como tantos outros, começam em clima de paixão e encantamento, mas com o tempo a atmosfera de sedução se esvai, e os primeiros indícios da personalidade perversa, controladora e muitas vezes paranóica do abusador são desvelados. Podemos detectar um abusador através de seu comportamento. Por exemplo:

  • Controle de sua mobilidade: vigia seus passos, impede que você frequente alguns lugares e determina a hora que você deve voltar para casa.
  • Controle de com quem se relaciona: implica com suas amizades, determina com quem pode falar ou se encontrar. Denigre as pessoas que você mais gosta e que estão mais próximas de você.
  • Tentativas de te afastar de seus amigos e da sua família. Quanto mais a vítima estiver isolada, mais controle ele tem sobre ela.
  • Implicância com seu modo de vestir, sua maquiagem. Te impede de usar determinadas roupas.
  • Violação de sua privacidade. Vasculha celulares, redes sociais, sua conta corrente.
  • Interrupções: despreza suas opiniões, te interrompe quando você está falando, te deprecia, ridiculariza, humilha e faz ameaças.
  • Uso do sexo como descarga emocional. Ele precisa transar para relaxar e não respeita sua vontade, seu desejo e seu corpo.
  • Controle financeiro, mesmo quando você não depende dele financeiramente.
  • Inversão de perspectiva: a culpa é sempre sua. Se ele agrediu é porque você provocou; se ele tem ciúmes, foi você quem provocou; se ele te controla,  é porque você não é confiável; se ele te afasta da sua família e de seus amigos é para o seu bem, porque eles não são uma boa influência para você; se você pensa em se separar, é você quem não se importa com a família.
  • Xingamentos, calúnias, difamação. Te chama de louca, prostituta, vadia, mentirosa. Te acusa de traidora.
  • Uso das redes sociais para difamar.
  • Difamação para pessoas próximas, sendo que algumas delas podem acreditar nele, tal a capacidade que os abusadores têm de seduzir e de se fazerem de vítimas.

Os abusos, que no início eram esporádicos, se tornam sistemáticos, produzindo danos na estrutura psíquica da vítima, que fica cada vez mais fragilizada e presa ao agressor. Imagine que todos os dias, muitas vezes por dia e durante anos, você recebe uma agulhada, sempre no mesmo lugar: é assim que se constitui uma relação abusiva. Com a frequência, a constância e a intensidade aumentando ao longo do tempo, cria-se uma ferida muito, muito grande e extremamente dolorosa no tecido psíquico. Com a progressão das agressões, a vítima vai ficando sem forças, deprime. Se sente inferior, incapaz. Tem medo de ficar sozinha, de nunca ser amada. Duvida de si mesma, se culpa pelas agressões, se sente incapaz de amar. Tem medo de morrer e também de viver esperando o próximo ataque, se sente sem saída. Desamparada, fragilizada e distante de si mesma, a vítima se torna refém do agressor.

Dado o precário estado emocional da vítima, mesmo depois de um episódio extremo de agressão é difícil sair das teias do agressor. É por esta razão que as agressões normalmente seguem um padrão cíclico, como se segue:

  1. EVOLUÇÃO DA TENSÃO – após o período da paixão, começam as agressões verbais (ofensas, humilhações, rebaixamentos) e surgem as tentativas de controle. É difícil para a vítima perceber na fase da paixão que o relacionamento vai se degringolar em abuso.
  2. EXPLOSÃO – episódio de agressão, com a intensificação das agressões psicológicas, violência física e sexo forçado.
  3. LUA DE MEL – quando a agressão chega ao limite, a vitima tem forças para pedir ajuda. Quando o agressor percebe que pode perde-la, ele volta a seduzir para reconquistá-la (eu não sou ninguém sem você, nunca amei alguém como você). Adota um comportamento gentil e amoroso, faz promessas de mudança, dá presentes, diz que se arrependeu, que nunca mais vai ser agressivo.  A vítima acredita, lhe dá uma chance e o ciclo se repete.

Por isto, se você identifica que está vivendo um relacionamento abusivo, procure ajuda. Não se isole. Se você conhece alguém nesta situação, tente ajudar. Não se condene e não julgue, pois não é fácil romper este ciclo. De verdade.

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