Com muita delicadeza, o diretor indiano Aamir Khan nos leva a conhecer a riqueza do mundo interior de uma criança que sofre de dislexia, que é um transtorno genético e hereditário que compromete o aprendizado da leitura e da escrita, mas também a concentração, a organização temporal e a coordenação motora. As palavras estão dançando, dizia Ishaan a seus professores, para explicar porque ele não conseguia ler. Observador, assim ele via o mundo, com movimento e cores, era uma criança viva psiquicamente.
Seu mundo interno é uma espécie de refúgio de seu mundo externo, inóspito. Na escola, Ishaan era ridicularizado por colegas, não tinha amigos. Era incompreendido por seus educadores, que o viam como um aluno preguiçoso, provocador e indisciplinado. Em casa, a distância e a rigidez de seu pai contrastava com a sensibilidade da mãe e o companheirismo do irmão. O pai queria o melhor para Ishaan, preocupava-se com seu futuro, mas ele não tinha recursos psíquicos para alcançar e compreender a complexidade de mundo mental de seu filho. Com a mente cheia de regras e distante da realidade do garoto, o pai lutava para enquadra-lo em seu esquema prático, racional e disciplinar, que na verdade era o único que ele podia vislumbrar.
Acompanhamos a dor de Ishaan, que vai num crescendo com o desenrolar do filme. Somos lançados na sua solidão e no seu desamparo, e finalmente, na profundidade de sua depressão. O garoto em sofrimento, a princípio expressa sua dor pela via da fúria e por fim, distante de si mesmo, cai no vazio, perde o brilho e o interesse pela vida.
Acompanhamos também , ao longo do filme, as dificuldades do pai para se aproximar afetivamente do filho. Tomado pelo medo das consequências de seu fracasso escolar, ele matricula Ishaan num colégio interno, com a expectativa de que através da rigidez da disciplina, ele finalmente se enquadraria à vida escolar, podendo assim se preparar para a vida adulta, num mundo, que segundo ele, é cruel e competitivo.
No entanto, Ishaan interpretou a empreitada do pai como uma punição por seu fracasso. Sem o olhar amoroso da mãe, sentindo-se humilhado por professores e colegas, Ishaan deprime. Não quer mais desenhar. Não fala com ninguém, se recolhe em seu mundo interno, que vai se escurecendo, perdendo as cores. A fúria deu lugar ao desalento, à paralisia. Seu olhar vazio e a sua desvitalização chama a atenção de um professor de artes, homem muito sensível, que conheceu no seu íntimo a dificuldade de não se enquadrar no mundo “normal”.
Este professor percebeu que o garoto estava em risco e se propõe verdadeiramente a ajudá-lo. Conversa com ele, cria atividades inclusivas em suas aulas, incentiva Ishaan a voltar a desenhar, viaja para falar com seus pais, arrisca-se a ser incompreendido, envolve o diretor e os professores da escola, aproxima as pessoas de seus sentimentos através da arte e produz uma grande transformação, não só em Ishaan, mas também em toda a escola.
Este homem sensível e amoroso, mudou o destino de Ishaan. Foi através da construção, juntos e aos poucos, de um vínculo fértil. profundo e verdadeiro, estruturado pela confiança e pelo amor à verdade que ele ajudou Ishaan a sair do desamparo e da solidão. Compreendido e acompanhado, ele floresceu, voltou a desenhar, a brincar. Ishaan pôde então ser quem ele é, e foi valorizado por isto. Um olhar pode mudar toda a história e dar um novo destino ao destino de um ser humano.


